quinta-feira, janeiro 20, 2011

Diante da absurda reação do delegado Damasio Marino contra a abordagem do advogado Anatole Morandini que, ao vê-lo estacionar indevidamente na vaga destinada às pessoas com deficiência, o advertiu, o dia-dia de pessoas como eu vem à mídia por algum tempo.
E, diante de algo tão violento e desnecessário, obviamente, não há quem discorde de que os direitos das pessoas com deficiência devem ser mais respeitados. E todos comentam e recriminam e, por um dia, prestam atenção na necessidade que há de se ter um vaga reservada com o espaço regulamentar, rampas, piso tátil, entre outros.
E amanhã? Irão se revoltar da mesma forma? Eu digo isso por mim. É tanta indiferença às nossas necessidades, tanta ignorância quanto aos benefícios de se ter uma cidade acessível, que, aos poucos, vamos nos cansado de, constantemente, repetir, reclamar, se queixar. É, uns dias em maior ou menor grau, mas vamos nos acostumando a sorrisos amarelos de quem sai do banheiro de deficiente sem ser, e se depara com nós esperando.
Conversando ontem com meu namorado, ele comentou que nunca mais eu tinha comentado sobre essas coisas, criticado no twitter, ou me revoltado sobre uma dessas situações. Foi daí que eu acordei e conectei com um episódio que nos ocorreu no último sábado. Juntos, eu e ele resolvemos curtir uma piscina no condomínio. Algo mais do que típico pra uma tarde de sol. Umas 10 crianças acima de 8 anos na piscina, do outro lado. Foi só nos aproximarmos e, olha só, somos um imã: todas as crianças migram pra mais perto de onde estávamos e, de repente, surgem 10 olhares curiosos, cochicham e apontam. Nós dois, rindo da situação e deixando ir. Tá, incomoda, mas não vamos fazer draminha, certo?
Errado. Crianças dessa idade que apontam, cochicham e estranham eu, cadeirante, com meu namorado na piscina são crianças que não aprenderam a lidar com as diferenças. Representam uma sociedade em que não há acesso amplo da pessoa com deficiência à educação, onde não só se recebe educação formal, mas se aprende a conviver. Crianças que, no futuro, não respeitarão uma vaga, nem farão seus estabelecimentos acessíveis, pois desconhecerão a capacidade que um indivíduo com deficiência tem de viver de forma igual quando se atende às suas necessidades específicas. Pois não tiveram a oportunidade de conhecer pessoas com deficiência que, ainda hoje, vivem numa segregação velada. Pouco viram deficientes nas suas escolas, nas novelas, como seus professores ou amigos.
Parece exagerado e ressentido o que eu falo? Não se você entende o que eu estou dizendo e sabe que não se pode definir o dia em que essas crianças, de repente, aprenderão que existem pessoas diferentes, sim, e que merecem ser respeitadas. Não tratadas a coronhadas e olhares demasiadamente curiosos.